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REPORTAGEM: Vegetais com código de barras Stephen Leahy MÉRIDA, México , 16 de novembro (IPS) - (Tierramérica).- O código de barras do ADN chegou ao mundo vegetal, graças a um novo avanço que pode revolucionar a medicina natural e o controle do tráfico de espécies de madeiras. Os avanços na técnica dos perfis genéticos podem ser usados para erradicar o comércio ilegal de madeira, regular de modo apropriado a aplicação de ervas medicinais e muito mais, prometem especialistas. A novidade foi anunciada durante a III Conferência Internacional do Código de Barras da Vida, realizada na Academia Mexicana de Ciências, entre 10 e 12 deste mês. “Demorou quatro anos, mas a nova disciplina do código de barras do ADN (ácido desoxirribonucléico, ou DNA em inglês) agora conta com marcador preciso para as plantas”, disse David Schindel, secretário-executivo do Consórcio do Código de Barras da Vida (CBOL, na sigla em inglês). “Cientistas especialistas em biodiversidade estão usando esta técnica genética para revelar mistérios, de modo muito semelhante ao que os detetives utilizam para resolver crimes”, disse Schindel ao Terramérica, na Cidade do México, onde o CBOL é coanfitrião da Conferência, junto com o Instituto de Biologia da Universidade Autônoma do México (Unam). “Este trabalho no México e em outros lugares é de extrema importância”, afirmou Patrícia Escalante, diretora do Departamento de Zoologia do Instituto. “O código de barras é uma ferramenta para identificar espécies de modo mais rápido, mais barato e mais preciso do que os métodos tradicionais”, disse Escalante em um comunicado à imprensa. O ADN contém todas as instruções genéticas para que qualquer organismo se desenvolva. Enquanto o de um ser humano é diferente e mais complexo do que o de um verme, o de um rato é bastante similar ao das pessoas. Há vários anos, o canadense Instituto de Biodiversidade de Ontário identificou um fragmento do gene citocromo c oxidasa I como o lugar onde se localiza o código de barras de todas as espécies animais, o que permite aos cientistas identificá-las rápida e facilmente. Prevê-se que, em poucos anos, a tecnologia avance a ponto de a identificação de uma espécie consistir em pouco mais do que tomar uma amostra de tecido e usar um escaner de código de barras semelhante ao usado no comércio, explicou Schindel. Embora tenham sido encontrados fragmentos de ADN onde estão os códigos de barras de aves e insetos, o avanço não era o mesmo com os vegetais, porque estima-se que há cerca de 400 mil espécies. Agora os cientistas do CBOL podem compilar uma base de dados de todas as espécies de plantas conhecidas com seus códigos de barras único, para formar uma biblioteca que sirva como referência mundial. Num futuro próximo, os inspetores poderão pegar uma pequena mostra de toras ou madeira e determinar se procedem de árvores cortadas ilegalmente. Provas semelhantes também podem ser usadas para verificar se uma madeira vendida a um preço elevado no mercado legal realmente é o que os vendedores dizem ser. Isto pode valorizar produtos, erradicar o comércio ilegal ou revelar falsificações, disse Schindel. O mesmo se aplica aos remédios elaborados com ervas. As misturas de preparos com ervas secas e moídas são muito difíceis de se identificar sem um código de barras de ADN, acrescentou. O México tem cerca de 800 espécies de cactos, algumas delas muito raras e apreciadas pelos colecionadores. Porém, não há nenhum mapa das cadeias de espécies e apenas uns poucos especialistas no mundo podem identificar as espécies individuais. “Se o México não proteger estas espécies raras, elas desaparecerão, mas primeiro é preciso saber onde estão”, afirmou Schindel. O código de barras genético pode ajudar a traçar mapas da distribuição de cada espécie. E isso, por sua vez, pode abrir novos mercados para que a população local aproveite os cactos, porque será possível saber se pode ser feito de modo sustentável, acrescentou. Também é difícil determinar de maneira simples quando se está diante de um caso de tráfico de animais. Em 2003, um brasileiro foi pego contrabandeando 58 ovos. Argumentou que eram de codorna, mas a polícia aeroportuária suspeitou que poderiam ser de maritacas. Os filhotes nunca romperam a casca. Mas o código de barras do ADN demonstrou que três dos ovos eram de arara azul (Anodorhynchus hyacinthinus) e arara de testa vermelha (Ara rubrogenys), espécies vulneráveis, segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), 51 de sabiá-cica (Triclaria malachitacea) ou de papagaio galego (Alipiopsitta xanthops), ambos ameaçados, e outros quatro de papagaio campeiro ou real (Amazona ochrocephala). As aplicações dos perfis genéticos parecem infinitas. No México, cientistas espanhóis anunciaram que determinaram o código de barras do sangue encontrado no ventre de cem mosquitos, para averiguar quais animais os insetos picavam, além dos seres humanos. Segundo um comunicado de imprensa, descobriram que os mosquitos haviam picado 18 mamíferos, entre eles lebres, perdizes e mangustos, além de 26 aves. Os resultados são importantes para investigar os vetores de transmissão da malária e outras doenças. Pesquisadores canadenses apresentaram novos estudos baseados na análise do material genético das fezes de morcegos, os quais revelaram que oito espécies alimentam-se de aproximadamente 300 tipos de insetos. Esta aplicação do código de barras do ADN, para descobrir as complexas dinâmicas da natureza, constitui todo um novo campo de pesquisa, que pode ter importantes implicações em matéria de conservação, disse ao Terramérica Atilano Contreras, do Instituto de Biologia da Unam. Embora seu uso não esteja difundido no México, o código de barras genético permitiu identificar várias novas espécies de parasitas. Acredita-se que os parasitas micóticos sejam a principal causa da queda mundial da população de anfíbios, afirmou Contreras. Para realizar estas pesquisas, “não é necessário um sofisticado laboratório de alta tecnologia, e o custo é bastante baixo, entre US$ 10 e US$ 20 por amostra”, ressaltou. * O autor é correspondente da IPS. (END/2009)
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