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Indígenas convidam para ouvir a Terra
Valentina Martinez Valdés - IPS/IFEJ
MÉRIDA, México, 16 de novembro (IPS) -
(Tierramérica). A ideia de “terra silvestre” traz consigo seu oposto, a terra urbanizada, explorada ou alterada. Por isso, é alheia às concepções aborígines do mundo.
O conceito de “terras silvestres” ou “terras nativas” não existe como tal nas cosmovisões indígenas, mas está implícito e se transmite de uma geração a outra, inculcando-se como uma forma de vida. “A ideia de terras silvestres é interessante, mas é do Ocidente. Na realidade, nossa gente sempre viveu e interagiu com o meio ambiente”, disse ao Terramérica Illion Merculieff, ativista ambiental da comunidade aleut do Alasca.
Este povoado sobrevive há mais de dez mil anos nas ilhas e litoral do setentrional Mar de Bering. Em condições tão difíceis, os aleuts souberam adaptar-se. “A adaptação é absolutamente essencial, mas não a definida pela comunidade científica, e sim a que tem origem na observação e na comunicação de e com o meio ambiente”, disse Merculieff. Desde pequeno, ele se comunica com o oceano, que lhe revela se haverá marés altas e onde estão os melhores lugares para a pesca.
A muitos quilômetros de distância, vive Gerald Antoine, ex-grande chefe da Primeira Nação Dehcho, nos Territórios do Noroeste do Canadá. “As terras silvestres não existem em nosso vocabulário, mas nossa gente sempre fala em proteger a terra. Para nós é algo natural: a terra nos mantém e precisamos respeitá-la porque a natureza nos fornece coisas”, afirmou. Merculieff e Antoine se encontraram na cidade mexicana de Mérida com outros chefes, líderes, membros e assessores de povos aborígines do mundo, em uma sessão do Conselho de Terras Indígenas e Silvestres, realizada durante o 9º Congresso Mundial de Terras Silvestres, entre 5 e 13 deste mês.
Essas terras, que em muitos casos são territórios indígenas, enfrentam problemas de todo tipo. E a forma de abordá-los se reflete na identidade única dos povos que as habitam. Por exemplo, a comunidade de Santa Clara Pueblo, no Novo México, enfrentou incêndios que destruíram 10% de suas florestas. Para Joseph Gutiérrez, morador de Kha’po Owinge, ou Vale das Rosas Selvagens (o nome tradicional da comunidade), a resposta de sua nação permaneceu dentro de suas tradições e de seus costumes. “Quando o conselho tribal se deu conta de que os incêndios florestais haviam afetado a pesca, também percebeu que seria um golpe em nossa cultura”, afirmou. Assim, “a comunidade criou um departamento florestal e de restauração, manejado pela tribo, e desde então plantamos mais de 1,7 milhão de árvores”, acrescentou.
Na região amazônica da Colômbia, Rose Mary Parente, foi eleita governadora da comunidade indígena tikuna de Castañal de Los Lagos, de 536 habitantes. “Trabalho com as pessoas e elas dizem o que querem fazer. Como governadora, colaboro com as pessoas na gestão de recursos para o trabalho comunitário”, disse ao Terramérica. Apesar de ter governo próprio, um dos maiores problemas de Castañal de Los Lagos é o desmatamento. “Foram cortadas muitas árvores, mas não fomos nós. Foram pessoas de outras partes. Nossos idosos também cortaram algumas e agora se dão conta de que realmente é preciso haver árvores, e estão colaborando neste projeto”, acrescentou.
Com o preceito de mandar obedecendo, Parente se entregou ao trabalho de administrar projetos com instâncias internacionais, não apenas para reflorestar, como também para conservar o Lago Yahuarcaca e tratar de iniciativas produtivas da “chagra”, a fazenda agrícola tradicional. Há muitos outros exemplos de iniciativas em terras indígenas de diferentes partes do mundo. Graças à sua unidade, o povo yawanawá do Brasil conseguiu sair de um estado de escravidão e obter um território independente no Estado do Acre, onde preserva sua terra e sua cultura.
No Equador, a formação da Federação Indígena da Nacionalidade Cofán conseguiu reunir 13 comunidades-base e, entre outros êxitos, colocou em funcionamento um programa de guarda-parques certificados. Os valores tradicionais herdados também permitiram que a Nação Flathead, situada em Montana, noroeste dos Estados Unidos, se convertesse na primeira a destinar um sétimo de seu território à proteção natural, além de organizar ações para a conservação do búfalo. “A comunidade global precisa regressar às suas origens, à terra, e assim mudar a mentalidade’, afirmou Tashka Yawanawá, chefe do povo yawanawá do Brasil.
O ritmo em que se extinguem as espécies do planeta deveria ser detido para que seja cumprido, no próximo ano, o compromisso assumido pela comunidade internacional dentro do Convênio sobre a Diversidade Biológica. Os aborígines reclamam reconhecimento do papel que podem ter nesse esforço. “Os povos indígenas devem se converter em atores principais da conservação, mas, ao mesmo tempo, são necessários mecanismos que permitam, aos que decidem, ouvir e levar em conta estes pontos de vista”, afirmou Julie Cajune, da Nação Flathead e coordenadora da sessão.
Terry Tanner, também da Nação Flathead, disse ao Terramérica: “Nossos velhos têm muitas histórias para nos contar das montanhas, da caça, da coleta de frutos e de nossa gente.” Merculieff resumiu esta combinação de espírito e sabedoria: “Temos de saber como ouvir nosso coração. A mente pode mentir, mas o coração nunca mente.”
* Este artigo é parte integrante de uma série produzida pela IPS (Inter Press Service) e pela IFEJ (Federação Internacional de Jornalistas Ambientais) para a Aliança de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustentável (http://www.complusalliance.org) (END/2009)
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