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Viver sob ameaça de ataques suicidas
Zofeen Ebrahim

Lahores, Paquistão, 29/7/2010, (IPS) - Os atentados cometidos no Paquistão contra alvos militares agora apontam para “objetivos brandos”.

Algumas pessoas acabam adquirindo certa imunidade diante dos fatos de violência e tentam não alterar sua vida cotidiana, mas nem todos têm essa habilidade. Uma multidão se aglomerou no templo de Hazrat Ali Hajveri, santuário do sufismo do Século 11, perto de Bhaati Gate na murada cidade de Lahore, norte do país. No dia 2, havia muito mais gente do que o normal na oração das sextas-feiras, porque dois atacantes suicidas se imolaram na véspera, matando 44 pessoas e deixando mais de 170 feridas. Foi o pior atentado contra um santuário sufi no Paquistão desde 2001.

“Havia pedaços de gente por todo lado, alguns até colados à parede”, recordou Riaz Ahmed, jornalista da rede de televisão privada Aaj, que chegou ao local dez minutos após a explosão. “Era uma carnificina. Havia um terrível cheiro de carne humana queimada”, lembrou. Riaz ficou até de manhã e viu como as pessoas se aproximavam para orar. “A população desafia os insurgentes”, afirmou o jornalista. Ele próprio disse estar “acostumado a sangue”, pois cobriu muitos ataques violentos nos últimos anos e trabalhou por quase duas décadas para a editoria policial de um jornal antes de entrar na Aaj. O mesmo acontece com muitos paquistaneses, que se tornam estoicos diante da violência em seu país, porque “a vida deve continuar”.

“Simplesmente ignorei e continuei jantando em casa”, contou a artista Rabiya Mumtaz, se referindo à notícia do atentado do dia 1º deste mês. “Me esforcei para não perder a sensibilidade, mas acabei me acostumando”, lamentou. A jornalista Hani Tabi disse que não se preocupa em evitar determinado lugar “apenas pela possibilidade de não ser seguro. Não deixo de viver. Honestamente, que outra opção temos?”, perguntou. “Para evitar a violência é preciso pensar seriamente em emigrar para Canadá ou Austrália”.

A estratégia de Hani pode ser uma forma de sobreviver em um país constantemente sacudido por graves episódios de violência. Neste país de maioria islâmica, houve 2.586 atentados terroristas, da insurgência e de sectários, em 2009, segundo o Instituto de Estudos de Paz do Paquistão, com sede em Islamabad. Os incidentes deixaram 3.021 mortos e 7.334 feridos. A maior quantidade de atentados aconteceu na província de Jiber Pakhtunja, onde houve 1.137, seguida do Baluchistão com 792. Houve, ainda, 559 ataques nas Áreas Tribais Administradas Federalmente (Fata), 46 em Punjab, 30 em Sindh, 12 em Islamabad e cinco em Gilgit-Baltistão e na Caxemira paquistanesa, dos quais 87 foram atentados suicidas, 32% mais do que em 2008.

Os atentados registrados naquele ano foram principalmente contra as forças de segurança, e os de 2009 visaram os chamados “objetivos brandos”, centros universitários e locais sagrados. De fato, este ano apenas dois, dos nove atentados registrados, foram contra objetivos militares ou políticos. Um deles, inclusive, aconteceu durante uma partida de voleibol e outro ocorreu em um hospital.

Poucos dias após o atentado no templo sufi, 104 pessoas foram assassinadas e pelo menos 120 feridas em duas explosões no mercado da Agência Mohammad, em Fata. “O Paquistão é para os lutadores, os desafiantes, apesar das explosões, golpes de Estado, quebras institucionais”, disse uma mulher que afirmou tentar levar uma vida o mais normal possível, por causa de sua saúde mental. Contudo, nem todos pensam assim.

“A gente nunca acostuma aos atentados terroristas”, disse o empresário Rauf, de 63 anos. “Só os zumbis e as pessoas sem vida podem suportar isso, os vivos não”, acrescentou Rauf, morador na cidade portuária de Karachi. “Fiquei mal do estômago” e fui consumido pela raiva ao ouvir na televisão a notícia do ataque contra o templo sufi. “Como alguém pode se acostumar com fatos tão trágicos?”, perguntou Yasmin Ali, de 48 anos, mãe de duas crianças. “Com cada um perdemos uma parte de nós mesmos, de nossa humanidade”, afirmou.

Por outro lado, há os que desejam que o governo acabe com a violência. “O que é preciso para convencer nossas forças de segurança de que é mortal continuar apoiando essas organizações?”, perguntou a analista Ayesha Siddiqa. O governo “primeiro tem que decidir se quer se desfazer dos extremistas”, acrescentou. “Não podemos dizer que o governo atual tenha vontade ou capacidade para controlar a situação”, disse Masud Sharif Jattak, ex-diretor geral do Escritório de Inteligência do Paquistão. “Organizar conferências nacionais e chamativas reuniões não ajuda”, acrescentou.

As forças de segurança lançaram, em 2009, uma grande ofensiva militar contra um reduto da insurgência no Waziristão do Sul, na fronteira com o Afeganistão. Altos chefes do exército afirmam que limparam a área. No entanto, a julgar pela frequência e tipo de ataque, parece que a guerra está longe de acabar. Envolverde/IPS

(FIN/2010)

 
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