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DIALOGUES
As duas faces da agricultura
Julio Godoy

BERLIM, 8 de fevereiro, (IPS) - (Tierramérica).- “Os agricultores podem ser excelentes gerentes dos recursos naturais e dos ecossistemas”, afirma nesta entrevista exclusiva o diretor-executivo do Pnuma.


Crédito: Gentileza Pnuma
Achim Steiner, diretor-executivo do Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente).
O desafio do século 21 é que a atividade agrícola se transforme em boa administradora da biodiversidade e abandone sua capacidade destruidora, sem limitar sua missão de alimentar uma população mundial crescente, disse o diretor-executivo do Pnuma, Achim Steiner. Como o deus Jano, cujos dois rostos olham em direções opostas, a agricultura pode proteger a biodiversidade do planeta, ou dizimá-la com o uso irracional de insumos químicos e redução da fecundidade do solo.

Segundo a Organização das Nações Unidas, diariamente desaparecem cerca de 150 espécies, vítimas de atividades humanas que provocam a mudança climática, incluída a produção rural, e que transformam os diferentes ecossistemas. O Terramérica conversou com o responsável do Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), em Berlim, por ocasião do lançamento do Ano Internacional da Diversidade Biológica, que busca chamar a atenção para a necessidade vital de proteger e conservar a multiplicidade de flora e fauna do planeta.

TERRAMÉRICA: A agricultura é indispensável como produtora de alimentos, mas potencialmente perigosa para a biodiversidade.

ACHIM STEINER: É verdade. A crescente importância da agricultura, provocada pelo aumento da população mundial, pressupõe que fiquem, cada vez mais, restritos os espaços vitais de muitas espécies, tanto de flora como de fauna. Neste sentido, a agricultura é um perigo para a biodiversidade. Por exemplo, a cada ano, ocorrem perdas de milhares de milhões de dólares por causa da agricultura irracional, que destroi a fecundidade dos solos. O uso exagerado de produtos químicos, como pesticidas, herbicidas e similares, contribui para a eliminação de muitos organismos úteis. Podemos deter esse processo de erosão e aniquilamento de espécies se aplicarmos outros modelos para aproveitar de maneira ótima esses 20 centímetros da camada da crosta terrestre necessários para produzir os bens que necessitamos. Com estes modelos alternativos, a agricultura oferece um grande potencial de proteção de plantas e animais. Os agricultores podem ser excelentes gerentes dos recursos naturais e dos diferentes ecossistemas. O desafio deste século é como recompensar os agricultores para que continuem produzindo os bens indispensáveis para a humanidade e, ao mesmo tempo, contribuam para conservar e proteger os ecossistemas, cruciais para nossa sobrevivência.

TERRAMÉRICA: O senhor se refere à agricultura orgânica?

AS: Este é um exemplo de como trabalhar a terra em harmonia com a natureza. Com o uso da ciência e do manejo sustentável dos recursos, a intenção é aproveitar a fecundidade do solo sem destruir a natureza. Porém, não quero passar a ideia de que o desafio se reduz a uma dicotomia entre agricultura orgânica e tradicional. As fronteiras entre ambas são porosas e uma pode aprender com a outra. Trata-se de garantir a produção de alimentos para um número crescente de habitantes do planeta e, ao mesmo tempo, proteger a natureza e a biodiversidade.

TERRAMÉRICA: Mas o impacto negativo da agricultura é variado. Por exemplo, a produção de importantes emissões de gases-estufa, que contribuem para a mudança climática.

AS: Sim, hoje a agricultura responde por 15% a 18% do total de gases-estufa emitidos no mundo. Basta dar uma olhada em qualquer cultivo. Tratores vão e vêm, consumindo combustíveis fósseis e emitindo dióxido de carbono, como também ocorre no transporte de vegetais e de outros produtos agrícolas, bem como na produção de fertilizantes, pesticidas e herbicidas. Os animais emitem metano. Por estas razões, como para toda a economia, necessitamos de um balanço das emissões de dióxido de carbono geradas pela agricultura. A partir disso, poderemos comparar quais modelos agrícolas têm melhor resultado em termos ambientais, para assim estimular os produtores com um saldo negativo muito alto a adotar um sistema alternativo, que lhes permita reduzir suas emissões, ou mesmo capturar esses gases, por meio de outros usos da terra, como plantar florestas.

TERRAMÉRICA: Entretanto, basta falar da necessidade de proteger fauna e flora para convencer os agricultores e líderes nacionais a mudarem seus modelos?

AS: Seguramente conceitos como biodiversidade e ecossistemas podem parecer abstratos para muita gente. Mas estão relacionados diretamente com benefícios econômicos concretos para milhões de pessoas. Por exemplo, a multiplicidade de benefícios econômicos gerados pelos corais, e a variedade de animais que dependem diretamente deles para sua sobrevivência, não são aspectos valorizados suficientemente pelas autoridades econômicas, tanto em nível nacional quanto internacional. Porém, os corais geram benefícios de até US$ 189 mil anuais por hectare, apenas na forma de proteção de litorais e manejo natural de riscos. A isso se deve somar a renda com turismo, pesca e fornecimento de materiais genéticos e outros, que ultrapassam facilmente o milhão de dólares por hectare ao ano.

TERRAMÉRICA: Apesar de tudo isto, a biodiversidade continua diminuindo. Oficialmente, está se confirmando que não será alcançado o objetivo, fixado em 2003, de deter este processo até 2010.

AS: Por isso mesmo exorto os governos do mundo a renovarem seu compromisso e a fixarem objetivos ambiciosos. A urgência da situação exige que a comunidade internacional não só detenha a velocidade com que as espécies estão desaparecendo, como também restitua a infraestrutura ambiental destruída nos últimos cem anos.

* O autor é correspondente da IPS. (FIN/2010)

 
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Terramérica - Meio Ambiente e Desenvolvimento
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