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GRANDES NOMES
Mudança climática: unidade e coragem para evitar o desastre
Kumi Naidoo

LONDRES, 8 de fevereiro, (IPS) - (Tierramérica).- Algo bom surgiu em dezembro em Copenhague: a unidade da sociedade civil, coisa que não ocorria desde o fim da Guerra Fria, afirma neste artigo o diretor-executivo do Greenpeace, Kumi Naidoo.


Crédito: Fabrício Vanden Broeck

Como novo diretor-executivo do Greenpeace, frequentemente me perguntam quais mudanças penso fazer na organização e respondo o mesmo que considero aplicável a toda a sociedade civil: gostaria que o Greenpeace se tornasse mais inclusivo do que já é e que pudéssemos nos unir a mais forças para trabalhos conjuntos. Também que sejamos mais determinados em nossa atitude em relação ao poder e ainda mais ativos em todo o mundo. Chegamos a um momento na história em que algumas das mais importantes infraestruturas internacionais estão em pedaços e contribuíram para desencadear a atual série de crises: de alimentos, do petróleo, da pobreza e naturalmente da mudança climática.

Podemos simplesmente optar por remendar as infraestruturas disfuncionais com frágeis “acordos”, realizar resgates financeiros desequilibrados e fazer vista grossa diante das necessidades dos pobres. Mas este caminho, aparentemente favorecido pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e por outros líderes mundiais, não serve para enfrentar as causas que nos levaram ao desastre. Ou podemos remodelar nosso futuro com a criação de novas infraestruturas que encaminhem nossa sociedade e o planeta para um caminho de sustentabilidade e equanimidade. Esta não é a opção mais fácil, mas creio que é a correta.

No caso da mudança climática, por exemplo, a natureza exige mudanças fundamentais em nosso modo de viver. Temos de reformar a economia e passar de um sistema baseado nos combustíveis fósseis e no consumismo para um que utilize energias limpas e eficientes, e que pratique a moderação. O Fórum Global Humanitário de Kofi Annan estima que cerca de 300 mil pessoas morrem ao ano pelos efeitos da mudança climática. A horrível ironia é que a grande maioria dessas pessoas é de pobres do mundo em desenvolvimento, embora o problema tenha sido causado pelos ricos do mundo industrializado.

Uma nova ordem mundial exige que olhemos além dos próprios interesses locais e nacionais e que pensemos globalmente porque, como muitos dos maiores problemas atuais, a mudança climática não conhece fronteiras. Infelizmente, faltou aos políticos coragem para admitir esta verdade nas conversações da ONU sobre clima realizadas em Copenhague. Mas, algo bom surgiu em Copenhague: a unidade da sociedade civil, coisa que não ocorria desde o fim da Guerra Fria.

Vimos, unidos no chamamento sobre a questão climática, o Conselho Mundial de Igrejas e outros grupos religiosos, sindicatos e organizações que se ocupam do desenvolvimento e normalmente não se envolvem em assuntos ambientais. Esse foi o objetivo da campanha Tck Tck Tck, uma coalizão de organizações da sociedade civil que inclui Greenpeace, Anistia Internacional e Confederação Sindical Internacional, entre outras.

Enquanto os governos continuarem admitindo apenas da boca para fora a urgência de encontrar soluções para a crise climática, sem assumir nenhum compromisso substancial, a situação será cada vez mais grave, aumentará a pobreza, será obstruído o desenvolvimento e a solução dos problemas sanitários, e as comunidades serão cada vez menos capazes de se adaptarem à mudança climática.

Em Copenhague, reivindicamos coletivamente de Obama, Angela Merkel, Nicolas Sarkozy e outros dirigentes do mundo industrializado, que se comprometam a destinar US$ 140 bilhões anuais para permitir a adaptação dos países mais pobres e vulneráveis aos efeitos da mudança climática e possam enfrentá-los. Apenas uma fração dessa quantia foi comprometida, e sem que o acordo seja legalmente vinculante.

Devemos continuar pressionando os governos para que escolham o caminho adequado para evitar a catástrofe. É verdade, há tensões entre as organizações não governamentais do Norte e do Sul, diferenças de opiniões, mas não podemos permitir que tais desacordos interfiram em nossa luta, porque o que nos une é muito mais do que o que nos divide.

Também devemos intensificar a desobediência civil pacífica, nos inspirando em Nelson Mandela, Desmond Tut, Rosa Parks, Martin Luther King e Mahatma Gandhi. Segundo palavras do historiador e ativista Howard Zinn (que morreu no dia 27 de janeiro), é importante que todos participem dos protestos pacíficos para que os líderes mundiais tomem, de uma vez por todas, as medidas para enfrentar a mudança climática.

As batalhas que temos pela frente serão duras e precisaremos de coragem. A coragem pode ter várias formas, como no caso de meus quatro colegas do Greenpeace que realizaram um ato pacífico de desobediência civil em Copenhague, que lhes custou 21 dias de prisão, embora ainda não tenham passado por um tribunal.

Há também a coragem das famílias que mudam seu estilo de vida e a dos homens e mulheres comuns que protestam, participam de concentrações e empregam todos os meios não violentos para garantir que governos e indústrias façam as mudanças necessárias para que possamos deixar um planeta saudável para nossos descendentes. Um mundo melhor é possível e cabe a nós, pessoas, criá-lo.

* Kumi Naidoo é diretor-executivo do Greenpeace. Direitos exclusivos IPS. (FIN/2010)

 
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