MULHERES-CUBA
Tecer outra ordem das coisas
Dalia Acosta
Havana, 1/2/2010, (IPS) - Andrea Del Sol começou a ser chamada por uma vizinha de “La Perseverante” e assim ficou. Desde 1998, ela e um pequeno grupo de mulheres de Alamar, na periferia da capital cubana, puseram suas energias em um propósito comum: “mudar a ordem das coisas”.
As preocupações eram muitas, como a necessidade de ter um espaço para compartilhar, criar uma biblioteca e promover o saneamento ambiental. Porém, qualquer urgência parecia fácil de enfrentar comparada à violência cotidiana e de gênero que se respira nesta cidade dormitório por excelência.
“Em minha região vivem pessoas de mais de 57 municípios do país. Cada uma trouxe seus costumes, suas raízes, sua religião, e este é um dos elementos a considerar quando são geradas situações de conflito”, contou à IPS Del Sol, que há 20 anos reside em Alamar Este, uma das principais áreas do muito extenso bairro.
“Vivemos desde a violência extrema da agressão física até a mais disfarçada no interior da família. É a mulher maltratada, o pai que bota o filho na rua e aquele que o tem em casa e não lhe dá a devida atenção. E também, cada vez com maior frequência, vivemos a violência na rua”, disse.
Fileiras de edifícios quase iguais, já maltratados pelo salitre que chega do mar, se sucedem em quilômetros e quilômetros. Apenas os serviços básicos de saúde, algumas unidades comerciais e muito escassas instituições culturais, esportivas ou recreativas, são uma realidade do que se poderia considerar um projeto nunca acabado.
O bairro onde vive Del Sol se estende por mais de nove quilômetros quadrados e tem uma população aproximada de 38 mil habitantes. O número não inclui uma quantidade importante de residentes que chegam das províncias, ou outras regiões da cidade, e não se inscrevem nos registros de endereço.
Procedente da cidade de Santa Cruz do Sul, 570 quilômetros a leste de Havana, e formada em Ciências Pedagógicas na antiga União Soviética, Del Sol é a especialista principal da Oficina de Transformação Integral do Bairro (TTIB) de Alamar Este, uma instância subordinada administrativamente ao governo municipal.
Surgidos em 1988 por sugestão do então presidente Fidel Castro, os TTIB funcionam em 20 bairros da capital cubana, que mostram diferentes graus de vulnerabilidade, com a finalidade de promover a transformação física, social e ambiental das comunidades, com a participação ativa dos moradores.
O fio de Ariadna
Tudo começou no porão de um prédio. Duas tecelãs decidiram compartilhar sua arte com algumas vizinhas do bairro. O grupo foi crescendo espontaneamente e, quando o TTIB teve espaço próprio, elas se mudaram para a casa onde funcionam atualmente. Assim surgiu o projeto conhecido desde então como “O fio de Ariadna”.
Se na mitologia grega o fio de Ariadna ajudou Teseu a encontrar a saída do labirinto depois de matar o minotauro, em Alamar Este o grupo de tecelãs se converteu no coração de uma ideia que foi enriquecida com retalhos, macramé, papel maché, bonecaria e pintura.
Uma década depois, mais de cem mulheres passam a cada ano pelos cursos da oficina, a casa acolhe a Universidade do Idoso na região, um projeto para pessoas com mais de 60 anos, trabalha com a população infantil na rede ambiental Mapa Verde e preparou mais de 200 moradores em painéis de liderança e participação comunitária.
“As pessoas aprendem o que é participação genuína e vivem a oportunidade de se envolver com sua realidade, assumir compromissos e tomar decisões”, disse a líder comunitária.
Foi assim, quase como uma consequência lógica, que no ano passado assumiram a máxima responsabilidade na confecção de uma manta coletiva contra a violência de gênero. Coordenada pelo não governamental Grupo de Reflexão e Solidariedade Oscar Arnulfo Romero (OAR), o trabalho incluiu pessoas de quatro oficinas da capital de Cuba.
A tela de cinco metros de comprimento por um de largura, concebido pelo designer José Angel Lamas, mostra uma bandeira cubana coberta de flores, um sol com um homem e uma mulher no centro e um jardim em volta de tudo. Cada oficina se responsabilizou por fazer alguma parte e tudo foi unido em Alamar Este.
Para Ventura González, o artista que pintou o jardim na manta, sua elaboração foi uma oportunidade única para artesãos e artistas unirem-se em uma obra comum. “La Perseverante” Del Sol, no entanto, destaca o clima de solidariedade que surgiu em torno da obra e o trabalho com pessoas que chegaram do “outro extremo da cidade”.
“Era algo que se devia tocar com as mãos. Aprendemos a nos aliar por algo positivo e, durante os meses que durou o trabalho, vieram pessoas voluntárias de muitos lugares oferecer suas ideias e colaborar com o que fosse necessário. A manta nos fortaleceu”, ressaltou a líder.
Mudanças a partir da comunidade
Integrante, desde 2006, do programa de atividades organizado em Cuba em torno do 25 de novembro, Dia Internacional de Combate à Violência contra as Mulheres, Alamar Este é apenas uma das oficinas da cidade que há anos participam de um projeto de sensibilização da OAR em relação ao problema da violência de gênero.
“Desnaturalizar a violência começa por cada um de nós, dos homens e mulheres implicados no problema. A comunidade tem um papel importante porque nela estão as pessoas que querem fazer coisas a favor da não violência”, disse à IPS Gabriel Coderch, coordenador geral da OAR.
Com a mesma confiança na contribuição de cada pessoa na promoção de mudanças sociais, a equipe da oficina de Alamar Este definiu a violência de gênero como uma de suas linhas estratégicas de trabalho e, de oficina em oficina, compreendeu que não bastava trabalhar com as mulheres maltratadas, com os homens e as famílias.
Assim tem sido com as instituições e, sobretudo, com o sistema educacional. “Trabalhamos com professores jovens e também com professores de muita experiência porque compreendemos que é preciso começar com as brincadeiras infantis. As crianças têm de aprender a brincar sem violência”, disse Del Sol.
“Quando começamos, pensávamos que a mulher estando presente já seria suficiente. Com o tempo descobrimos que sem os homens não fazíamos nada, que este projeto precisava pensá-los e tê-los juntos. E depois entendemos que tínhamos de criar espaços para determinados grupos mas também intergerações”, explicou.
Quanto mais trabalha na promoção da não violência, Andrea del Sol tem a sensação de que lhe resta muito mais por fazer: “é como uma missão para toda a vida”, confessou. IPS/Envolverde
(FIN/2010)
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