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ÁGUA-CONGO
Kinshasa morre de sede
Emmanuel Chaco

Kinshasa, 19/11/2009, (IPS) - A população da capital da República Democrática do Congo (RDC) necessita de 700 mil metros cúbicos de água por dia, mas a Direção de Distribuição de Água (Regidesco) fornece apenas 425 mil.


Crédito: Julien Harneis/Creative Commons
Apenas 22% dos congoleses têm acceso à água potável
Grandes bairros como Kitokimosi e Mpasa recebem quase nada. A situação em outras partes do país é igual, quando não pior. “No total, apenas 22% dos congolenses têm acesso a água potável, enquanto a média na África subsaariana é de aproximadamente 60%”, disse Frank Bousquet, do Projeto Urbano para o Fornecimento de Água Potável (Pemu), do Banco Mundial.

“A falta de água potável supõe uma significativa ameaça à saúde pública, e são os pobres que pagam o preço maior por um serviço ineficiente. Pagam sete vezes mais por um litro de água do que custaria se os serviços funcionassem de maneira adequada”, explicou Bousquet. Jean-Pierre Kajangu, do programa de economia da saúde na Escola de Saúde Pública da Universidade de Kinshasa, alerta que a situação é grave. “Não se trata apenas da saúde dos moradores de Kitokimosi e Mpasa, mas toda a população de Kinshasa está em risco”, acrescenta.

“A água dos poços e rios causa muitos problemas de saúde às mulheres, porque a usamos para banho, cozinhar e lavar nossas roupas, que nem mesmo podemos passar por falta de eletricidade”, disse Sophie Nkeyi, que vende pescado no mercado de Kotokimosi. Ela e sua filha de 10 anos vão ao médico regularmente. “Nos receita antibióticos e remédios contra infecções e parasitas intestinais, aos quais nos expomos na água de rios e lagos”, disse à IPS.

Lydia Panzu, de 16 anos, afirmou que sofre dores nas costas há três anos porque é obrigada a coletar água. “Problemas de costas, pescoço, porque vou duas ou três vezes ao dia, desço ao vale do rio e regresso, cada vez com cerca de 20 litros sobre a cabeça”, contou.

Os departamentos técnico e financeiro da Regidesco dizem que a má distribuição se deve à infraestrutura antiquada. “Um exemplo-chave são as instalações de Lukunga, com capacidade para 48 mil metros cúbicos por dia, que beneficiam um milhão de moradores em dois distritos de Kinshasa. Foi construída em 1939 pelas potências coloniais e até hoje não teve uma restauração substancial”, disse o diretor de exploração na Regidesco, Davuid Ekwanza. A falta de manutenção é uma consequência direta da escassez de recursos financeiros.

“A falta de financiamento se deve principalmente ao fato de os departamentos do governo, que são os maiores consumidores, não pagarem mensalmente as contas”, afirmou, por sua vez,o chefe de finanças da estatal, Polycarpe Kabangu. “Esses departamentos são escritórios, residências oficiais de certos políticos bem colocados, empresas públicas... que devem cerca de US$ 2,5 milhões mensais, o que representa 40% do negocio, causando enormes dificuldades financeiras que tornam impossível reconstruir a infraestrutura e o fornecimento em toda cidade de Kinshasa, bem como pagar os salários dos funcionários”, acrescentou.

O Pemu propõe aumentar de forma sustentável o acesso à água em áreas urbanas, melhorando a efetividade técnica e financeira da empresa. O projeto se concentrará na restauração da viabilidade financeira; criação de condições para uma administração dinâmica, que converterá a companhia pública em uma entidade social desenhada para aumentar a autonomia gerencial, bem com a remoção e adaptação da infraestrutura em três centros onde é mais provável haver os ganhos necessários para restaurar o equilíbrio e ajudar a apoiar os centros secundários.

A ativista pelos direitos humanos Louise Yemba está cansada de ouvir promessas de que a água chegará a Mpasa. “Creio que pecisamos de um projeto melhor do que os já lançados pelo Banco Mundial na RDC, cujos efeitos limitaram-se à publicidade” desse organismo multilateral, afirmou. Yemba duvida que o projeto seja efetivamente executado. Ou, em última instancia, “será mal implementado devido à má qualidade do gerenciamento neste país e à paralisia da sociedade civil congolense, que deve se conscientizar de seu papel na pressão sobre o Banco Mundial e o governo para que atendam a todos os congolenses que não têm acesso à água”, acrescentou.

Patrice Musoko, coordenadora da Associação Congolense de Consumidores de Produtos Alimentícios, concorda que a ação social é a chave. “A sociedade civil deve exercer uma efetiva pressão sobre o governo para que reduza o atraso no pagamento de suas contas, permitindo que a Regidesco mantenha sua infraestrutura e fornecimento nos bairros de Kinshasa que ainda não recebem água. A sociedade civil também deve fazer um acompanhamento para garantir que o dinheiro seja efetivamente usado para esses fins”, afirmou. Mas, em um país que ainda sofre os efeitos de uma série de conflitos armados, essa não será uma tarefa fácil. (IPS/Envolverde) (FIN/2009)

 
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