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ZÂMBIA
Dependendo de um rio que dá medo
Lloyd Himaambo

Shangombo. Zâmbia, 19/11/2009, (IPS) - A comunidade pesqueira da ilha de Mbeta, no distrito de Shangombo, em Zâmbia, depende do rio Zambeze, mas também o teme.


Crédito: Nebert Mulenga/IRIN.
Zâmbia teme inundações, nesta temporada de chuvas
O Zambeze transbordou no ano passado e arrasou as casas de Mbeta. Mulemwa Kalaluka é um conhecido pescador local que emprega uma técnica tradicional, com arpão e armadilha de peixes, e é dono de um barco pesqueiro. Está contente porque nesta estação a pesca foi abundante e lhe permitiu alimentar sua família e vender o excedente a empresas de localidades maiores. Os moradores de Mbeta também cultivam, em especial quando o nível das águas é alto ou quando a pesca está proibida na temporada de reprodução.

As inundações da temperada 2008-2009, que afundaram totalmente a grande ilha e obrigaram a população a fugir, ressurgem na lembrança das pessoas pouco antes da estação chuvosa. “Foi muito duro”, lembra Kalaluka, as piores enchentes desde 1958, segundo a população local. “No começo ignoramos o aviso dos líderes locais de que teríamos de mudar. Pensamos que eram chuvas normais e que passariam, como todos os anos”, acrescentou. Mas, quando se deram conta de acontecia algo incomum já era muito tarde. Centenas de pessoas se refugiaram em uma escola de Mbeta, que também acabou inundada.

As pessoas foram retiradas em barcos pesqueiros e balsas porque o nível da água aumentava a cada segundo. Na pressa, o gado se perdeu e foram salvos pouquíssimos alimentos básicos que conseguiram guardar. Todo o distrito de Shangombo foi inundado e ficou isolado do resto do país porque à pontes foram arrasadas pela corrente. As pessoas foram levadas para terras altas como o ex-acampamento de refugiados na localidade vizinha de Namgwehsi. A ajuda às vitimas foi temporária, durou cerca de um mês. As pessoas puderam voltar para suas casas, mas há grande probabilidade de ocorrer o mesmo este ano.

Pode haver inundações nesta temporada, disse o legislador do distrito, Mubika Mubika, ao ser consultado sobre as medidas da ajuda à população. “Apenas Deus sabe o que vai acontecer”, respondeu diante da insistência sobre a sorte dos moradores da ilha se o rio transbordar como na temporada passada. Existe um programa de recolocação permanente para quem estiver interessado, disse finalmente Mbika, que também integra o gabinete. Mas os moradores ouvidos nada sabem sobre o programa, a não ser por declarações de políticos em campanha eleitoral.

O administrador de Shangombo, Mishcek Kabayo, insistiu que as pessoas prejudicadas não regressaram às terras baixas. Todos foram recolocados em aldeias altas. Os que estão em áreas de risco vão pescar, mas voltam para lugares seguros. Mas Kabayo reconheceu que ainda não se pôs em prática a recolocação permanente. “Já identificamos as terras e esperamos dividi-las logo para fazer a distribuição”, afirmou. Mas suas declarações destoam da realidade no terreno.

“Não temos outra opção a não ser voltar aqui”, disse com raiva o agricultor Mundia Kabutu. “O que esperam que façamos? Mesmo se quiséssemos mudar, para onde iríamos?”, acrescentou. A ajuda é temporária e não basta para começar uma nova vida em um contexto diferente, lamentou. “De que governo se fala? Não podem nem construir uma estrada adequada para ligar este lugar com o resto do país, e espera-se que nos construam casas novas?”, disse.

“Quando as águas voltarem mudaremos para esse lugar alto, mas depois voltaremos para continuar com nossa vida aqui”, afirmou Sibeso Nasilele. Aos 61 anos, Nasilele não imagina uma nova vida fora de Mbeta. Talvez os jovens estejam mais dispostos, disse. “Nasci e morrerei aqui, pois já estou no ocaso da vida”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

(FIN/2009)

 
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