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JORNALISMO-AMÉRICA LATINA:
Prêmio para os retratos "cinzas" da pobreza
Daniela Estrada

Santiago, 06/11/2009, (IPS) - Com a presença da administradora mundial do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), a neozelandesa Helen Clark, foi realizada ontem, em Santiago, a cerimônia de premiação do Segundo Concurso Jornalístico América Latina e os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, organizado por essa agência da ONU e pela agência internacional de noticias IPS (Inter Press Service).


Crédito: Claudio Doñas/IPS
Mario Muñoz de Loza , Joaquín Costanzo, (IPS) y Helen Clark, ( PNUD)
“Sabemos que estas reportagens sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) nem sempre venderão mais jornais, ou atrairão maior público, ou terão manchetes muito importantes, mas, são histórias que chegam aos que mais necessitam de uma voz em nossas sociedades”, disse Clark em seu discurso na concorrida cerimônia realizada no Hotel Sheraton da capital chilena. A ex-primeira-ministra da Nova Zelândia (1999-2008) afirmou que o aumento do desemprego e a pobreza na região ameaçam o cumprimento dos ODM, acordados pela comunidade internacional em 2000 para combater a indigência e a desigualdade e promover a saúde, a educação, a igualdade de gênero e a proteção do meio ambiente, entre outros propósitos. Seis jornalistas do Brasil, Argentina, Equador, Chile, México e Venezuela são os ganhadores da segunda edição deste concurso, que tem financiamento da cooperação italiana. O primeiro lugar, premiado com US$ 5 mil, foi para o mexicano Mario Muñoz de Loza que, em uma série de reportagens publicadas no jornal El Informador, de Guadalajara, retratou a fundo a pobreza em seu país. “Tereso é o exemplo”, é o revelador título da matéria de Muñoz, que conta a história de um jovem indígena morto, esquecido pela família e pelo Estado. “Este concurso já é uma realidade conhecida e reclamada por milhares de jornalistas em toda a região”, disse o diretor da IPS para a América Latina, o uruguaio Joaquín Constanzo, ao abrir a cerimônia assistida por mais de uma centena de convidados e que terminou com um descontraído almoço. Participaram representantes do Pnud de toda a América Latina, delegados de outras agências da Organização das Nações Unidas com sede no Chile, diplomatas, membros da sociedade civil e meios de comunicação nacionais e estrangeiros. O júri do concurso foi integrado por Rebeca Grynspan, diretora regional do Pnud para a América Latina e o Caribe; Mario Lubetkin, diretor-geral da IPS; Miguel Angel Granados Chapa, jornalista mexicano; Mario Delgado Aparaín, escritor uruguaio, e pelo professor universitário brasileiro Luis Gonzaga de Mello Belluzzo. “Foi formada uma rede de vários milhares de comunicadores que, nos consta, têm interesse em refletir na mídia onde trabalham os temas dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio”, enfatizou Constanzo. O segundo lugar, com o prêmio de US$ 2.500, foi para Silvia Regina Bessa, do Diário de Pernambuco, pela reportagem “Quilombola – Os direitos negados de um povo” sobre as comunidades remanescentes de antigos enclaves de africanos que fugiam da escravidão. O trabalho foi definido pelo júri como “um retrato da pobreza, da exclusão e da discriminação no Brasil”. A jornalista Adriana Rivera, da Revista Sede Dias, do jornal El Nacional, da Venezuela, ficou em terceiro lugar e com o prêmio de US$ 1 mil. Sua reportagem “A escolaridade é alvo da violência” descreve a situação com que convivem diariamente os adolescentes venezuelanos e a luta travada pelas instituições de ensino para atrai-los e mantê-los no sistema educacional. “O jornalismo, ou muitas empresas jornalísticas, avançam a passo firme e perigoso, e às vezes patético, para a superficialidade e para a cobertura por telefone”, disse Abel Dante Leguizamón, jornalista argentino-italiano que ficou com o quarto lugar com a reportagem “Tartagal, a tragédia”, publicada no Periódico Día a Dia, de Córdoba (Argentina). “Garanto a vocês que cada um de nós (ganhadores) somos grandes lutadores na redação. Temos essa loucura de ir ao local dos fatos, como loucos, como gente que não se preocupa com horário no computador, no control C, control V, que é ‘copiar e colar’”, acrescentou. “Como somos tão perigosos, temos de estar o tempo todo convencendo os chefes, nos pondo sedutores, nos vestindo bem, chegando mais cedo, saindo antes para podermos fazer as coisas que não nos deixam fazer no horário de trabalho”, acrescentou Leguizamón. Estas palavras foram compartilhadas por seus colegas premiados. “Os jornais querem imagens e cores, e a pobreza é cinza”, ressaltou o jornalista, que agradeceu ao “oásis de possibilidades que são a IPS, o Pnud e a Fundação Novo Jornalismo”. O quinto lugar foi dividido entre Guadalupe del Rocio Yapud, do Diário La Hora, do Equador, e María Paz Cuevas, da Revista Paula, do Chile. Yapud apresentou a reportagem “Quando se vive com um dólar por dia”, que retrata a situação de povos indígenas da região, enquanto Cuevas é autora de “Heidi e Gretel”, matéria que conta a história de um casal de mulheres que se dedicaram ao pequeno tráfico de drogas para poderem manter nove crianças. Os trabalhos que participaram da segunda edição do concurso foram publicados entre 1º de outubro de 2008 e 30 de junho de 2009 na mídia impressa de circulação periódica permanente e em sites de organizações da sociedade civil ou comunitária da América Latina e do Caribe. “Recebemos quase 500 reportagens, artigos e entrevistas na primeira edição, e outro tanto nesta que celebramos hoje, todo material de altíssimo nível, escritos com uma magnífica combinação de beleza de estilo, rigor na exatidão e quantidade de dados duros, sensibilidade e compromisso, indispensáveis para se poder abordar temas em muitos casos dramáticos e comovedores”, resumiu Constanzo. Os cinco primeiros trabalhos serão incluídos em um livro a ser editado junto com uma seleção das reportagens produzidas pela IPS sobre o assunto no período de vigência do concurso. (IPS/Envolverde)

(FIN/2009)

 
Terramérica - Meio Ambiente e Desenvolvimento
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