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JAPÃO
Quando o trabalho mata
Catherine Makino

Tóquio, 05/112009, (IPS) - Kenji Hamada desabou certa manhã sobre a mesa da empresa onde trabalhava. Seus companheiros pensavam que dormia, mas, duas horas depois, ao verem que não se levantava, descobriram que estava morto.

Hamada faleceu de parada cardíaca aos 42 anos. A causa da morte: excesso de trabalho. Em um país conhecido pela pressão que sofrem os trabalhadores, o de Hamada está longe de ser um caso isolado. De fato, desde que este problema veio à luz nos anos 60 e disparou o alarme, milhares de pessoas morreram por essa causa, chamada de “karoshi” em japonês.

Cerca de 800 pessoas, entre as quais a viúva de Hamada, reuniram-se no mês passado no Templo Espiritual Mikoromo Takao, em Tóquio, para uma homenagem a milhares de trabalhadores que morreram devido a patologias diretamente vinculadas com a atividade trabalhista. “Kenji trabalhava tão duro”, contou sua viúva, Akiko. “Estava muito estressado e trabalhava durante o dia e de noite”, acrescentou. O ambiente profissional da companhia de seguros onde trabalhava, segundo ela, era “tão competitivo que nunca tinha uma folga”. Hamada trabalhava uma média de 75 horas durante a semana e gastava outras quatro para se deslocar de casa para a empresa e vice-versa.

As situações de estresse no trabalho ficam mais visíveis no contexto da crise econômica e financeira mundial que começou em 2008 nos Estados Unidos, segundo o advogado Hiroshi Kawahito, que dá assistência legal a familiares de vitimas de karoshi. A necessidade de aumentar as exportações e a redução de postos de trabalho exerce imensa pressão sobre os empregados, ressaltou Kawahito.

A depressão econômica obrigou muitas empresas a reduzirem o número de empregados, e menos pessoas devem realizar mais tarefas, o que só agravou a incidência de “karoshi”, segundo Weston Konishi, membro da Fundação Mansfield, com sede em Washington. O advogado teme que o fenômeno ganhe uma nova forma: o suicídio. “Isto é algo novo”, afirmou. “Há 20 anos, as paradas cardíacas ou as apoplexias eram expressões do karoshi”, destacou.

A Agência de Planejamento Econômica estimou em 1994 que cerca de mil pessoas morreram devido a patologias trabalhistas, isto é, 5% dos mortos por doenças cardiovasculares com idades entre 25 e 59 anos. A grande mudança agora é que os empregados tiram suas vidas, insistiu Kawahito. Dos mais de 30 mil suicídios registrados no ano passado, segundo dados oficiais, acredita-se que 10 mil estivessem relacionados com o estresse no trabalho. “Os trabalhadores sofrem cada vez mais estresse, o que deriva em problemas psicológicos como depressão, e alguns acabam se matando”, explicou o advogado.

O “karoshi” remonta ao final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando o Japão se propôs conseguir uma rápida recuperação e em menos de 20 anos se converteu na segunda economia do mundo. Os japoneses se esforçaram tanto que no final da década de 60 trabalhavam 12 horas por dia, ou mais, o que na época era considerado normal. O primeiro caso de karoshi foi registrado em 1969, quando um homem casado, de 29 anos, morreu vitima de apoplexia, após trabalhar mais de 40 dias sem descanso no departamento de distribuição do maior jornal do país, segundo o site Japan-101.

Pesquisa feita no ano passado pela Rengo, a confederação sindical japonesa, indica que 53% dos entrevistados sofriam cada vez mais estresse. Muitos disseram que o excesso de trabalho os irritava e em alguns causava problemas físicos e psicológicos. Os japoneses continuam trabalhando muitas horas, têm códigos trabalhistas rígidos, estruturas hierárquicas rígidas, não dormem muito nem dedicam tempo ao lazer, disse Kawahito à IPS. Precisam mudar seu estilo de vida, insistiu, o que se vê com mais assiduidade nas gerações mais jovens, segundo o advogado. Os jovens não levam as coisas tão a sério e parecem menos inclinados a morrer vitimas de patologias trabalhistas. Parecem gozar a vida, acrescentou. Entretanto, não há estudos que mostram qual grupo etário tem maior tendência ao karoshi.

O Ministério do Trabalho, da Saúde e do Bem-estar reconhece que há doenças causadas pelo estresse do trabalho. Em 1999, a pasta criou uma norma para determinar a responsabilidade das empresas em relação às doenças profissionais de seus empregados, que inclui desde enfermidades cardíacas e cerebrais até estresse. O padrão a que se refere esta última foi revisado este ano. Mas isso não basta para reverter a incidência das mortes causadas pelo excesso de trabalho. “O governo somente vê uma parte do problema”, disse Kawahito. “Na verdade, apenas mil suicídios foram atribuídos às condições de trabalho, quando a quantidade real girou em torno dos 10 mil” no ano passado, acrescentou.

Vários advogados, médicos e outros especialistas criaram em 1988 uma linha telefônica gratuita para ajudar pessoas que sofrem de alguma doença profissional e as que perderam familiares por essa causa. O serviço recebeu oito mil chamadas desde sua fundação. O karoshi é um dos problemas que os japoneses não querem enfrentar porque tem a ver com questões que são tabu, como o estresse, a cultura opressiva do ambiente de trabalho, que praticamente impede os empregados de dizerem a um superior quando se sentem esgotados pela atividade, disse Konishi, da Fundação Mansfield.

“As convenções sociais do Japão impedem que o assunto receba a atenção necessária”, disse Konishi à IPS. Com todo o conhecimento técnico acumulado, este país não consegue se beneficiar dele, em especial no ambiente de trabalho. “Ainda se faz muita coisa no papel e não no computador”, afirmou. Além disso, a assistência psicológica, que pode ser de grande utilidade para os trabalhadores submetidos a grandes pressões, é uma prática incipiente no Japão, acrescentou. Em alguns casos, pode não ser necessário um tratamento prolongado e complexo, bastando apenas criar um espaço para o trabalhador liberar a angústia reprimida. (IPS/Envolverde)

(FIN/2009)

 
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